sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Princípios para pesquisa acerca do “movimento crítico”:


• Anti-ideoplastia e antiformalismo;
• Corpo como campo de ocorrência de processos adaptativos entre as informações criadas pelo próprio corpo e escolhidas como um padrão (não natural = fruto de escolha);
• Investigar padrões de movimento, de informações e a percepção dos padrões escolhidos e suas conseqüências;
• Fazer com que as atualizações do pensamento sofram uma contínua substituição pela literalidade dos acontecimentos (poder de ambivalência);
• Dirigir as ações no sentido da manipulação dos movimentos e dos materiais técnico-cênicos relacionando conceituação artística e intenção do ato em si;
• Não deve haver uma coreografia pensada no modo habitual; como desenho do movimento do corpo no espaço. O que deve ser trabalhado/pesquisado e deve ser apresentado são múltiplas possibilidades de saídas produzidas para adaptação ao risco instaurado no corpo pelo próprio movimento, que chamamos aqui de movimento de crise – ponto crucial de decisão perante a imprevisibilidade do caos do movimento não idealizado;
• O ato corporal deve ser então a conquista de uma pré-determinação conceitual como fuga da idealização plástica;
• A presença do caos é o que nos dá a “seta do tempo”, o irreversível fluxo do passado em direção ao futuro, mas sempre no presente.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

PERCURSO E IDENTIDADE EM DEDICATING MYSELF TO AN UTOPIC PERSON CALLED ME




Identidade - conjunto de características próprias e exclusivas de um indivíduo; consciência da própria personalidade; o que faz com que uma coisa seja da mesma natureza que outra; estado que fica sempre igual


O percurso desenvolvido pelo bailarino em cena; por não se concretizar; não finalizar - pois ele não desenvolve uma trajetória “dramatúrgica” linear - abre o pensamento para uma idéia de identidade móvel, que não se materializa propriamente. Falamos aqui em identidades instantâneas, que surgem e se apagam, oscilando entre as imagens criadas pelo bailarino e o público e onde cada ação é um novo começo ou fim. Daí uma pseudo-identificação com o herói mítico e sua incompletude.
Em Dedicating myself... a identidade é vista pelo viés da instabilidade e do que é precário, do estar em um constante processo de transformação, como o próprio caminho que se percorre. Assim criamos uma espécie de movimento da identidade que se mobiliza relativamente em relação ao espaço, à medida que nele entra em contato com o outro e consigo, absorvendo experiências e criando fantasias, seja pela falta ou pela negação de outras realidades-identidades.
Esta característica instável de movência sugere - e deve dar ao público - uma sensação de precariedade, uma vez que aqui se trabalha com o inacabado, mas que já está deteriorado. Numa permanente construção poética que não visa propriamente à leitura sígnica, mas sim a percepção de um moto contínuo de transformação dialogando com a identidade do ser em cena.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Iniciação ao teatro pós-dramático




A PROPOSTA DE UMA "LÓGICA-ESTÉTICA" DO TEATRO CONTEMPORÂNEO
por Luiz Arthur Nunes*

Décimo primeiro título da coleção Cinema, Teatro e Modernidade, Teatro pós-dramático, de Hans-Thies Lehmann, lançado na Alemanha em 1999 (Postdramatisches Theater. Frankfurt: Verlag der Autoren, 1999) e traduzido com grande repercussão em diversos países, chega finalmente ao Brasil na tradução de Pedro Süssekind, pela Cosac Naify. A obra vem preencher uma grande lacuna, na medida em que se propõe a descrever e pensar teoricamente as práticas radicais da encenação teatral das últimas décadas - de 1970 em diante. Até então, alguma coisa tinha-se escrito sobre a dramaturgia experimental contemporânea, mas pouquíssimo sobre as questões referentes à cena, suas condições de produção e formalização, bem como as implicações estéticas, políticas e filosóficas.

O termo "pós-dramático" já fora empregado anteriormente em tentativas ainda imprecisas de compreensão dos fenômenos da vanguarda teatral. Foi Lehmann, porém, que lhe veio dar uma acepção sólida e abrangente como descrição e categorização de um fazer artístico extremamente complexo e até aqui mal delimitado. O "pós" do termo não significa absolutamente uma negação das práticas cênicas e dramatúrgicas precedentes. O teatro pós-dramático compreende a retomada e continuidade de estéticas que, desde o início do século XX, já se vinham distanciando das idéias puristas e ortodoxas do teatro e do drama. Por mais que as novas práticas se afirmem por uma oposição polêmica em relação ao establishment teatral, não é através da mera contestação que elas estabelecem sua identidade, mas sim, de uma rica constelação de configurações formais (e conseqüentemente conteudísticas) radicalmente inovadoras e renovadoras da escritura cênica.
O exame dos dispositivos teatrais pós-dramáticos empreendido por Lehmann salienta a persistente transgressão de categorias, implícita, por exemplo, numa incorporação ao palco dramático de expressões tão diversas quanto as da performance, das artes plásticas, da dança, da música, do cinema e do vídeo. Esse crossover de linguagens reverberando e dialogando entre si, torna-se possível somente num teatro que se enxerga enquanto prática específica, autônoma, de uma cena não comandada/ balizada pelo texto dramatúrgico, como no teatro tradicional.
Lehmann contempla um grande número de experimentos contemporâneos que se definem pelo modo "pós-dramático" de utilização do signo teatral. São citados e examinados em maior ou menor detalhe inúmeros encenadores, autores e companhias como Robert Wilson, Peter Brook, Robert Lepage, Elizabeth Lecompte, Pina Bausch, Maguy Marin, Susanne Linke, Meredith Monk, Frank Castorf, Tadeusz Kantor, Eimuntas Nekrosius, Richard Foreman, Richard Schechner, Jerzy Grotowsky, Eugenio Barba, Heiner Müller, Peter Handke, Marguerite Duras, Bernard-Marie Koltès, Michel Deutsch, The Wooster Group, Squat Theatre, Falso Movimento, Théâtre de la Complicité, La Fura dels Baus, Théâtre du Radeau, só para citar os mais conhecidos entre nós. Contudo, é preciso frisar que não estamos diante de um tratado de história do teatro, de um inventário exaustivo do espetáculo contemporâneo. O autor não pretende acompanhar trajetórias nem avaliar criticamente sua importância. Sua intenção é articular uma "lógica estética" do novo teatro. Na realidade, seu olhar procura apreender as diferentes formas de "gesto pós-dramático" trazidas por cada experimentação, como modos alterados de utilização dos significantes do teatro, gesto esse que tem como marca a despreocupação com a transmissão de conteúdos delimitados com exatidão do ponto de vista semântico.
Nas palavras do autor, o teatro pós-dramático propõe uma configuração cênica que se pretende pura apresentação, pura presentificação, afastando-se radicalmente da idéia do palco como lócus de representação da realidade. Diferentemente das outras artes, que criam objetos concretos ou operam por transmissão midiática, no evento teatral se encontram simultaneamente o ato estético como tal (atuação) e o ato de recepção (assistir ao espetáculo), e esse encontro é uma ação real num tempo e lugar determinados: uma fatia de vida ocorrida e experienciada em comunidade. O estudo de Lehmann procura distinguir de que maneiras a prática cênica, a partir do início dos anos 70, vem utilizando essa condição fundamental do fenômeno teatral como tema de reflexão e como o próprio conteúdo da representação.
Auto-reflexão, autotematização são certamente tendências da arte pós-moderna, notadamente da literatura. É preciso atentar, porém, para o fato de que o teatro pós-dramático não as realiza somente através do texto verbal. Este, na verdade, está em pé de igualdade com os outros signos da cena, visuais, auditivos, gestuais ou arquiteturais. Efetivamente, o teatro pós-dramático se estabelece, ele próprio, como um texto heterogêneo, onde a palavra é apenas um dos componentes: um texto que reflete constantemente sobre a sua natureza de linguagem em construção. Permanece a interdependência entre teatro e discurso verbal, constitutiva do dramático tradicional. O que acontece é que o texto dramático deixa de ser fator dominante para tornar-se mais um elemento, mais um dos vários materiais do arranjo cênico. O autor salienta no prólogo que, ao privilegiar seu objeto de estudo, não está absolutamente emitindo um julgamento de valor que pretenda pôr abaixo, como ultrapassados, os modos estabelecidos do fazer teatral. Segundo ele, grandes peças de teatro continuam sendo escritas dentro dos modelos consagrados. Diversas formas da cena pós-dramática, aliás, mantêm o texto verbal como ingrediente fundamental. Mas o fazem à sua maneira.
No "texto" do teatro pós-dramático freqüentemente diluem-se a narrativa, a representação de figuras humanas, a história. Muitos autores da vanguarda contemporânea escrevem obras em que as palavras não funcionam como diálogo entre personagens - as quais muitas vezes nem existem mais. A palavra se afirma como uma entidade autônoma. A camada de oralidade instaura-se na cena como uma corporeidade poética e sensual de alta voltagem. Assim como a pintura moderna abandonou o figurativismo, isto é, a reprodução mimética de realidades e elegeu como "tema" os próprios elementos constitutivos da visualidade pictórica: forma, cor, luminosidade, textura etc, a escritura pós-dramática também rejeita a ilusão mimética veiculada pelo verbo, e o verbo em si - livre de todo encargo figurativo - passa a ser uma realidade válida em si mesma.
Esse desinteresse pela fábula, pelo personagem, no entanto, Lehman tem o cuidado de frisar que não significa absolutamente uma perda de interesse pelo humano, mas tão somente uma nova maneira de contemplá-lo. A palavra deixa de ser um ato intencional do sujeito individualizado - a vontade de um eu consciente - para se tornar um desejo, uma emanação de uma subjetividade do inconsciente.
A decisão de Hans-Thies Lehmann foi de, na sua obra, deter-se fundamentalmente sobre as configurações estéticas do teatro pós-dramático, mas adverte-nos que uma análise estética envolve necessariamente questões de ordem ética, moral, política e filosófica. O teatro, como toda arte, é um fenômeno social, na medida em que envolve relações de trabalho e produção, financiamento público etc. Além disso, é, por natureza, uma obra de recepção coletiva e, mesmo que não se ocupe especificamente dos problemas da sociedade, com certeza estará sempre falando do muito de social que existe nas questões da percepção e do comportamento.
Na sua obra, o autor começa estabelecendo os paradigmas históricos do teatro e do drama, para, a partir daí, perguntar-se como a cena pós-dramática rompe com os mesmos. Depois de examinar a sua pré-história, fazendo uma retrospectiva das vanguardas teatrais a partir do final do século XIX, Lehmann investiga as múltiplas características do palco experimental dos nossos dias: o caráter cerimonial, a tendência ao estático e ao contemplativo (paisagem), a recusa da ilusão mimética, a presença da performance, as novas maneiras de trabalhar com a textualidade verbal, de manipular o tempo e espaço cênico, de tratar a imagem corporal, e a fusão com outras formas artísticas e com as mídias eletrônicas, para finalmente, no epílogo, sondar as implicações sócio-políticas dessa nova linguagem.
O autor reconhece que uma boa parte do público de teatro (no Brasil podemos tristemente dizer: a quase totalidade) espera ver em cima do palco ilustrações de uma história, de preferência, bem acessível à compreensão, estruturada dentro de um contexto lógico e capaz de suscitar emoções e diversão. Para esse público, as criações de um Robert Wilson ou de uma Pina Bausch resultam inacessíveis, uma vez que propõem uma desestabilização dos hábitos perceptivos (mal)educados pela indústria cultural - entre nós, principalmente pela pobreza franciscana do dramático televisivo. Sérgio de Carvalho, que escreve a apresentação da edição, evocando Brecht, chama-nos à atenção que "uma nova arte do ator não pode ser considerada sem uma nova arte do espectador, na medida em que a beleza deve ser vista como algo capaz de dar aos sentidos a oportunidade de se mostrarem hábeis". E cita a famosa frase de Brecht : "Belo é resolver dificuldades".
Não é, decerto, para um público que optou pelo entorpecimento e pela acomodação que o livro se destina, mas sim para aqueles - espectadores, profissionais e estudiosos da cena - que acreditam na autenticidade artística e na importância de um teatro renovado. Mas esses até agora careciam de um instrumental teórico para formular suas percepções. A grande, a imensa contribuição de Hans-Thies Lehmann em seu Teatro pós-dramático é justamente aparelhar-nos com essa ferramenta através de formulações e argumentos cuja densidade, rigor e clareza não impedem o prazer da leitura acompanhando o maquinar efervescente e instigante de seu pensamento.

* Luiz Arthur Nunes é diretor de teatro, dramaturgo, professor e doutor em teatro pela City University of New York (EUA).

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Livros e Artigo de Hans-Thies Lehmann sobre o teatro pós-dramático:

• “Teatro Pós-Dramático e Teatro Político”, tradução de Raquel Imanishi, artigo in Revista Sala Preta número 3, Departamento de Artes Cênicas/USP, São Paulo: 2003. Em português
• Postdramatisches Theater, Frankfurt am Main: Verl. Der Autoren, 1999.
• Le théâtre postdramatique, L'Arche Éditeur, 2002.
• Postdramatisches Theater, New York: Routledge, 2006.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

“A palavra não é a coisa, mas apenas um lampejo à luz do qual a percebemos.” Diderot

O projeto mmc & CRISE diz respeito à elaboração/organização de uma série de ações em dança contemporânea e performance que possibilitem o acontecimento de eventos experimentais práticos e abertos, que podem ser chamados “espetáculos” (desde que não nos prendamos ao significado da palavra espetáculo no que compreende representação, mas sim: vista, panorama ou visão de algo surpreendente – que apanha de improviso; induz ao erro; que causa surpresa).
Dedicating myself to an utopic person called me – para além da fúria do entendimento deve ser o primeiro “resultado/espetáculo-conceito” a ser apresentado como produto da pesquisa sobre “movimento crítico” que já vem sendo realizada por mim desde o ano de 2006.
Neste blog serão postados os mais diversos materiais que sirvam à pesquisa: desde textos escritos para o projeto, até imagens, músicas, etc que sirvam de livre inspiração pessoal.